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Saindo do avião em Addis Ababa, me amontoei com outras dezenas de passageiros na fila de translados da Ethiopian Airlines. Recebi um visto de um dia, carimbei meu passaporte e fui seguindo o fluxo até o estacionamento, onde havia diversas vans estacionadas, cada uma com o nome de um hotel no vidro dianteiro. A minha dizia "Friendship International", nome que me arrancou um sorriso involuntário - seria um bom sinal?
Sentei no banco da frente e perguntei ao motorista quanto tempo até o hotel. "Três minutinhos, senhorita". Fiquei um pouco desapontada, porque queria aproveitar a oportunidade para ver um pouco da cidade, sabendo que seria uma péssima ideia sair à noite sozinha para explorá-la.
Esse desapontamento desapareceu uns dois minutos depois.
Viramos uma esquina e vi um grupo de homens rindo e falando alto, ocupando a calçada e a beira da rua. Cada um tinha uma metralhadora apoiada no ombro. Reparei em uns detalhes dourados aqui e ali - cordões, relógios, anéis. Eles vestiam camisetas, bermudas e sandálias, o que eliminou imediatamente a minha esperança de serem policiais.
Um deles avistou a van e apontou para os outros. Eles começaram a rir. Meu coração disparou. Passou um filme inteiro na minha cabeça - um sinal para a van encostar, todos os passageiros na rua, palavras agressivas em um idioma desconhecido, mais risadas, uma explosão, o motorista jogado na sarjeta, um cara armado assumindo o volante, a ordem de voltar ao veículo, a certeza de que a jornada que nem comecei iria terminar ali.
Pisquei e a cena se dissolveu - já estávamos estacionando na porta do hotel, e nada tinha acontecido. Respirei fundo. Fui a primeira a fazer o check in. Entrei no quarto, tomei um banho, relaxei. Revi a posição da Etiópia no mapa - vizinha do Sudão, Somália e Arábia Saudita, pouco abaixo do Egito. É uma região cheia de conflitos sobre os quais pouco ou nada ouvimos falar.
Um mês depois, no voo de volta para casa, sentei ao lado de um guineense que trabalha na Cruz Vermelha - ele estava a caminho de Togo para uma missão com crianças separadas de suas famílias durante conflitos étnicos. Contei sobre minha breve experiência na Etiópia e tivemos uma longa conversa sobre os problemas sociais da África, que estão longe de qualquer solução. Soube de lutas armadas sobre as quais nunca tinha ouvido falar e do trabalho de ativistas e cientistas sociais para amenizar as cicatrizes do continente.
Na hora, lembrei dessa ilustração do The Oatmeal satirizando um aspecto da mídia - que elege um assunto em voga e o suga à exaustão, muitas vezes deixando outros temas tão importantes quanto de lado; e um aspecto do espectador - que deglute as notícias de forma apática e muitas vezes irracional, trocando valores e manifestando-se de formas quase sempre inúteis.
O triste é olhar para dentro e perceber que muitas vezes eu me encaixo nessa sátira.
Bem... o reconhecimento é o primeiro passo para a mudança.
Muito legal.. São experiências assim que nos torna mais humano neste mundo que muitas vezes, ou a maioria deles, as pessoas são é incongruentes, surdas, mudas ou indiferentes aos problemas ao seu redor, que apenas "fingem" que se importam, lembrando apenas em ver as mensagens ou fofocas do facebook! Em fim, existe vida lá fora, estas experiências afirmam isto... Anderson
ResponderExcluirÉ isso, Anderson. Às vezes a gente precisa de um choque de realidade para perceber que o mundo é muito maior do que o nosso feed do Facebook...
ExcluirEsta conversa me lembrou uma que eu tive com um iraquiano em um albergue em Los Angeles em 2012... Coisas que a gente só ouve viajando... ou entrando no www.vice.com ;)
ResponderExcluirMuito bom esse site, Jorge! Nunca tinha entrado, curti as histórias - bastante fonte de inspiração :)
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